26 Março 2026
Em um mundo marcado pela crescente polarização política, aceleração tecnológica e redefinição dos marcos democráticos, a visão especializada se torna indispensável. Franco Delle Donne, pesquisador e jornalista, tornou-se uma referência sobre a ultradireita e o autoritarismo.
A entrevista é de David Valiente, publicada por Librújula, 24-03-2026. A tradução é do Cepat.
Nascido em Buenos Aires, em 1983, Delle Donne é doutor em Comunicação pela Universidade Livre de Berlim e mestre em Democracia e Governo pela Universidade Autônoma de Madri. Nos últimos anos, tem combinado pesquisa acadêmica com divulgação pública. Dirige o podcast Epidemia Ultra e colabora com veículos de comunicação como elDiario.es e El Orden Mundial, além de ministrar conferências.
Em seu ensaio Epidemia Ultra. Del fascismo europeo a Silicon Valley: Anatomía de un fenómeno que está conquistando el mundo (Península) traça as raízes ideológicas que conectam o fascismo europeu do século XX com as novas dinâmicas de poder emergentes no ecossistema digital. Propõe uma leitura ambiciosa e bem documentada: analisa as mutações discursivas, as estratégias culturais e o papel das plataformas digitais na consolidação de novas formas de radicalização política, levantando questões incômodas sobre o futuro das democracias liberais.
Eis a entrevista.
Além de escrever este livro, você tem uma plataforma de divulgação muito mais ampla, que começou com um podcast. Como surgiu este projeto?
Em 2010, mudei-me para a Alemanha e, quando cheguei, era impensável que um partido político com um ideário como o da Alternativa para a Alemanha (AfD) pudesse existir. Nenhum grupo político ousava dizer sequer um décimo do que eles defendem, exceto partidos marginais com quase nenhuma representação no espaço político.
Em 2013, ano da fundação do partido AfD, comecei a estudar a ascensão da direita radical alemã. Chamou-me a atenção que um partido aparentemente eurocético também piscasse para a ideologia nazista através da linguagem que empregava.
Em 2015, ocorreu a crise dos refugiados sírios e a extrema-direita começou a emergir não apenas no meu país de acolhida, mas também em outras partes do mundo ocidental. Nessa ocasião, o Vox começou a ganhar força na Espanha, assim como Matteo Salvini na Itália.
Dois anos depois, Donald Trump chegou ao poder e Marine Le Pen foi para o segundo turno das eleições presidenciais francesas… Os movimentos políticos evidenciavam uma série de mudanças enfrentadas pelos países, como se fossem fenômenos novos que não tinham acontecido já em décadas passadas.
Diante da deriva cada vez mais extremista que a direita estava tomando, perguntei-me como seria possível tornar o conhecimento - tão bem explorado por acadêmicos - acessível a políticos, jornalistas e, claro, ao público em geral, que nem sempre tem tempo para se aprofundar na bibliografia abundante sobre o tema. Então, nasceu primeiro o podcast - que, para um meio tão especializado, teve uma audiência notável -, depois vieram os seminários e conferências e, em 2024, a editora Península entrou em contato comigo para propor que eu escrevesse um livro de divulgação, respeitoso com a linguagem técnica e focado em analisar a transformação da ultradireita em escala global.
Observando o cenário político e social atual, você diria que já estamos no auge da epidemia?
Gostaria de pensar que sim. Mas, para ser honesto, os sinais indicam totalmente o contrário: a tendência é agora mais expansiva. Do lado da oferta, os partidos tradicionais - e não estou apontando nem para os de direita, nem para os de esquerda – adotam o discurso, o estilo e a estratégia da ultradireita para ganhar votos. Compreendo o utilitarismo de suas táticas, embora não signifique que não sejam perigosas, já que os valores democráticos mais básicos podem ser corroídos no processo.
Por outro lado, a experiência mostra que, uma vez no poder, também não moderam seus métodos. Na Hungria, Viktor Orbán governa autocraticamente há uma década; Giorgia Meloni não reivindica mais abertamente o fascismo, mas isso não quer dizer que sua visão de como a sociedade deveria ser tenha mudado, de modo algum, e a prova disso é sua tendência a concentrar cada vez mais poder no executivo. O primeiro-ministro húngaro definiu essa propensão como “democracia iliberal”: a sociedade ainda participa dos assuntos políticos por meio do voto periódico, mas as restrições a direitos e liberdades – sobretudo para aqueles que não se encaixam na definição moral desses governantes – não param de crescer.
Essa tendência não é totalmente nova. Você a rastreia desde as suas origens ideológicas nas mentes de Oswald Spengler, Ernst Jünger e Carl Schmitt, e mostra que ela esteve latente durante o século XX. Como é possível que o organismo social não tenha sido capaz de gerar anticorpos para repelir essa nova onda do século XXI?
A esse respeito, considero várias hipóteses. A primeira tem a ver com a subestimação: as sociedades demonstraram excessiva confiança na solidez e na força do sistema democrático em repelir tais atores políticos. Estávamos convencidos de que havíamos definitivamente aprendido a lição da Segunda Guerra Mundial.
Por isso, quando os primeiros sintomas da nova onda epidêmica surgiram, em 2002, ninguém os levou a sério. Jean-Marie Le Pen foi para o segundo turno das eleições presidenciais francesas e, apesar da derrota, o resultado evidenciou o ressurgimento de uma ideologia que, aparentemente, não tinha chances reais de retornar ao poder.
Algo semelhante aconteceu nas eleições federais alemãs de 2013. De fato, os partidos tradicionais, incluindo o liderado por Angela Merkel, acreditaram que a ascensão da ultradireita era um fenômeno passageiro, consequência direta da crise de 2008, e que uma vez atenuado o descontentamento social, o espectro político voltaria a se recalibrar.
Por que as previsões dos políticos não se concretizaram?
Deve-se a diferentes causas. Mas uma das principais foi a descoberta de que a promessa da meritocracia se rompeu. Durante décadas, os jovens se esforçaram nos estudos e no trabalho para alcançar uma vida melhor do que a de seus pais. No entanto, os dados revelam que as gerações futuras serão mais pobres do que as anteriores: terão dificuldade em ter acesso à moradia, encontrar estabilidade no emprego será quase impossível e veem como algo distante a possibilidade de construir uma família.
A frustração que gerou o descrédito da meritocracia se deu em um momento de crise de identidade e pertencimento. Hoje, as identidades, sejam partidárias, religiosas ou sociais, são mais fracas e flexíveis do que algumas décadas atrás. As novas forças aproveitam essas frestas para irromper no cenário político. Esses partidos aprenderam a se comunicar melhor e desenvolveram estratégias culturais de longo prazo. Simplificando muito sua estratégia: entenderam que primeiro precisavam conquistar as mentes e a linguagem, e então a vitória eleitoral viria.
Você insiste que o grande triunfo dos partidos iliberais nem sempre é vencer eleições, mas normalizar o marco retórico que antes era inaceitável. Onde essa normalização é mais claramente vista hoje?
Certamente, cinco anos atrás, eu conseguiria ser mais preciso em minha resposta, porque agora o leque de assuntos é muito mais amplo e está condicionado pelo contexto e os limites culturais de cada país, já que existem diferenças na forma de debater a legitimidade da ditadura entre a Argentina e a Alemanha, ao passo que nos Estados Unidos o racismo não é expresso da mesma forma que na Europa.
Os limites do politicamente correto se deslocam até abarcar expressões abertamente discriminatórias em questões de origem, etnia e sexo. Antes, certas coisas podiam ser ouvidas no âmbito privado, mas agora também encontram seu receptor no espaço público e, o que é ainda mais surpreendente (e preocupante), nos organismos institucionais. Essa normalização acabou deslocando debates fundamentais, como a análise das consequências que uma política pública pode ter sobre determinados grupos.
Por que isso está acontecendo?
Atua-se com a lógica da pós-verdade. Pouco importa se um comentário é verdadeiro ou falso; o relevante é que, ao questioná-lo, a crítica é apresentada como um ataque à liberdade de expressão de um indivíduo, quando apenas se está confrontando uma argumentação. Essa dinâmica atual está produzindo uma espécie de inversão do liberalismo. Por mais que seus princípios sejam invocados, preconiza-se uma posição abertamente iliberal, e as redes sociais, como um funil por onde passa todo o ideário, desempenham um papel central nessa direção.
Quando o uso da internet não era tão amplo, os meios de comunicação tradicionais estabeleciam barreiras contra certas informações. Hoje, são consumidas notícias que nem sempre são verificadas, que reforçam nosso viés de confirmação, jogando mais lenha na fogueira da polarização, inclusive em ambientes familiares. É claro que os conflitos existiam antes, mas hoje são mais constantes e ocupam um espaço muito mais central.
Quais são os medos reais capitalizados pela ultradireita para alcançar seus objetivos?
Penso que um dos principais é o medo do estrangeiro. A chamada “teoria da grande substituição”, segundo a qual elementos raciais e culturais nativos seriam deslocados por estrangeiros, ganha adeptos. Esse fenômeno está presente na Europa, nos Estados Unidos e na Índia, embora, neste último caso, as raízes históricas sejam mais profundas. Por trás do medo de perder a identidade subjaz o medo da própria mudança.
As coordenadas morais definem nossas sociedades e, sejam elas justas ou injustas, seus membros se sentem seguros dentro das formas de convivência herdadas. Essa ideia se conecta com a noção de hierarquização defendida pela ultradireita: a harmonia depende de que cada pessoa conheça e aceite seu lugar na sociedade sem nenhum tipo de questionamento.
Os vírus têm diferentes cepas, formas de desenvolvimento e sintomas. Você encontrou diferenças entre o modo como o vírus do radicalismo se desenvolve na Europa em comparação com o que acontece no continente americano?
Mais do que falar das diferenças, gostaria de me concentrar no denominador comum que pude empregar para entender tanto a ascensão do AfD na Alemanha quanto a de Javier Milei na Argentina, que é a insatisfação dos cidadãos com os partidos tradicionais e, em alguns casos, com o próprio funcionamento do sistema democrático. As pesquisas revelam que os cidadãos estão cansados de partidos que prometem muito e cumprem pouco.
A partir daí, o desenvolvimento da extrema-direita, como mencionei acima, insere-se em contextos culturais de cada região. Nos Estados Unidos e na Europa, a teoria da grande substituição moldou a agenda desses partidos, ao passo que na América Latina fica mais marginalizada. Na Europa, esses partidos proclamam um Estado de bem-estar de caráter chauvinista, no qual a proteção social é reservada aos cidadãos nativos; do outro lado do Atlântico, a narrativa costuma ser marcada por propostas abertamente neoliberais, com tonalidades segundo o país.
Outra diferença relevante reside na questão social. Na América Latina, onde a pobreza estrutural é mais profunda, o debate gira em torno das necessidades básicas e das desigualdades mais visíveis. Na Europa ou nos Estados Unidos, a discussão costumar girar mais em torno do status relativo e da concorrência por recursos dentro de sociedades mais prósperas.
Em questões de memória história, também existem pontos de convergência. Esses partidos argumentam que a narrativa histórica foi apropriada pelo progressismo e que a leitura oficial resultante precisa ser revisada. Isso pode se traduzir em relativizar as violações de direitos humanos cometidas, por exemplo, pelas ditaduras na Argentina e na Espanha.
Como podemos combater esse vírus?
Se eu tivesse uma receita mágica, acredite, eu a estaria vendendo agora mesmo em algum curso de coaching (risos). Não existe uma fórmula universal - nem existirá - e as medidas tomadas terão de levar em consideração o contexto de cada país. No entanto, é possível começar a agir em diferentes níveis. A democracia liberal é fortemente questionada por esses partidos de direita radical que, assim como os ideólogos da revolução conservadora, um século atrás, argumentam que o sistema fracassou e que eles têm uma alternativa mais eficaz, ainda que envolva mais autoritarismo e, inclusive, desigualdade.
As elites democráticas não podem se limitar a afirmar que o sistema atual é o melhor que os cidadãos podem esperar. Devem ser as primeiras a reconhecer suas falhas reais - aumento da desigualdade, concentração da riqueza, limites do discurso meritocrático - e a propor alternativas políticas que reconheçam as contradições e ofereçam respostas críveis ao segmento social que se sente excluído ou decepcionado (ou ambas as coisas).
Por parte dos cidadãos, poderíamos começar trabalhando a empatia. É importante parar de tratar aquele que vota ou pensa diferente como se fosse um “idiota” ou um “malvado”. Com isso, a única coisa que se consegue é fechar o diálogo, uma das ferramentas mais poderosas para alcançar a mudança. Muitas pessoas votam em partidos de extrema-direita não porque estejam motivadas por uma convicção ideológica, mas porque sentem um profundo mal-estar.
Justamente por isso, representam uma oportunidade para o diálogo e para buscar um terreno comum para desarticular o marco ideológico dos extremistas. Nada do que acabo de propor são ingredientes para uma receita fácil, mas o que devemos evitar por todos os meios é responder ao conflito com mais conflito. Isto só leva à polarização que alimenta a maquinaria da extrema-direita.
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